Como já disse, prefiro andar pelo chão, vendo os lugares onde visito, que andar de avião, já que as nuvens são todas iguais e todas as partes do mundo (ta bom, tem lugar que não é) :)
Sempre tive a vontade de cruzar a Cordilheira dos Andes pelo chão, e naquela época, quando fiz essa viagem, eu só havia visto gelo dentro do freezer, então a ideia de cruzar aquelas montanhas cobertas com gelo me eram tentadoras. As passagens eu comprei pela Andesmar, a empresa de ônibus que vai de Buenos Aires, em direção a Santiago. Da pra comprar pela internet mesmo.
Em Buenos Aires, os ônibus saem do terminal de omnibus (esse m a mais é porque ta em espanhol hehehee), ao lado da Estación Ferroviaria de Retiro. Há uma estação de metrô ali, Retiro, mas talvez, se você tiver com bagagem, vale a pena ir de táxi. Retiro fica pertinho do centro, a poucos metros da Calle Florida, lugar sagrado para brasileiros passeando por Buenos Aires, e como o preço dos táxis em Buenos Aires é barato, vale muito a pena optar por um deles.
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| Terminal Retiro |
Pra começar, os ônibus não tem uma plataforma fixa, eles te informam que os ônibus podem sair de algum lugar entre as plataformas 1 e 10, por exemplo, e você que se vire caçando seu ônibus. O terminal também é enorme, são 75 plataformas empoeiradas e enfileiradas, e como fui em véspera de feriado, tava lotadaça. Depois de ficar zanzando procurando meu ônibus, enfim, ele estava lá, paradinho esperando por mim. Quem olha os ônibus argentinos por fora, e vê o tamanho, imagina que eles sejam espaçosos e confortáveis por dentro... é, mas não são. Comprei as primeiras poltronas, aquelas que ficam em cima do motorista, porque se a idéia era ver o país, ali eu teria a melhor visão. Sim, nisso eu acertei, tinha a melhor visão, mas se meus joelhos pudessem, teriam me xingado a viagem toda. O ônibus partiu no logo após o almoço, andou um pouco, e nem tinha saído da região metropolitana de Buenos Aires quando parou em outro terminal. Ficou ali parado mais uns 40 minutos. Não me lembro o nome da cidade, mas de raiva eu nem fiz questão de anotar. Preferi fazer uma escala técnica no caminho, na cidade de Mendoza, antes de cruzar a Cordilheira.
No começo foi legal, e até emocionante, com o motorista atendendo celular enquanto dirigia, depois gritando com outros carros, naquele jeito argentino de ser. Mas as horas vão passando e eu pensando, quando é que esse ônibus vai parar. Sabe aquelas paradas que os ônibus aqui no Brasil fazem, que te permitem ir ao banheiro, comer um sanduíche, as vezes até almoçar ou jantar... então, na Argentina, esqueça! Apesar da viagem ter mais de 12 horas de duração, o ônibus só para nas rodoviárias para pegar passageiro. Se você quiser, pode descer correndo, comprar algo pra comer, e voltar correndo. Os argentinos saíram comendo uns sanduíches estranhos, tipo, um bife a milanesa em meio a um pão... sei que parece tentador quando imaginamos, mas assim, eles comiam um pedaço, e guardavam o restante no bolso ou na bolsa para comer depois... sei lá, é carne né, mas enfim, questão de costume. Quando a fome apertou, desci em uma rodoviária correndo e fui até a lanchonete, queria ver o que eles tinham para vender e comprar algo para beber. A vitrine era lotada desses sanduíches. Comprei algumas coisas, voltei para o ônibus seguindo viagem. Foi entardecendo, a paisagem é realmente bonita, mas monótona. O interior da Argentina é muito plano, então as estradas são incrivelmente retas. Depois que a noite caiu, me lembro de passar por um lugar, tipo, uma província, onde a estrada era toda iluminada. Sim, quilômetros e mais quilômetros de rodovia iluminada. Pra quem queria dormir, isso não ajudou muito.
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| A quase 100km já avistávamos as Cordilheiras |
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| Estrada reta, bonita, e sonolenta |
Dormi pouco, muito pouco... apertado em uma poltrona pequenininha, meio de lado, e com fome, porque tudo que tínhamos levado eram chocolates. Peguei no sono lá pelo final da madrugada, e quando acordei, já estava amanhecendo. Acho que estávamos a uns 100 quilômetros de distância da Cordilheira, mas elas são tão altas, que já eram bem visíveis, imponentes, com seus picos nevados, emoldurados por imensos parreirais. Mendonza é uma região grande produtora de vinho.
Dias depois saímos de Mendoza em direção à Cordilheira. É incrível como aquelas montanhas são altas. Por mais fotos que se tire, por mais que se tente dizer, não da pra mostrar isso a não ser estando lá. É uma estrada simples, cheia de curvas, e ao seu lado pode se ver uma antiga ferrovia. A estrada é tão incrível quanto perigosa, e infelizmente, aqueles que a desafiam, dentre os quais caminhoneiros brasileiros, podem não voltar para casa. Fui no verão, quando não há neve na pista, mas no inverno ela costuma ser bloqueada por conta das nevascas. Seguimos subindo a estrada, e os picos nevados foram se aproximando cada vez mais, até que avistamos ele, riscando o céu das Américas, o Aconcágua, ponto mais alto do continente americano. Há uma briguinha por ali, do tipo, os chilenos dizem que o Aconcágua fica no Chile, os argentinos dizem que fica na Argentina... pra mim, fica no Brasil! hehehehehe.
Logo depois do Aconcágua, um túnel, que é a fronteira entre a Argentina e o Chile. Você entra por um país, e saí no outro. Logo após o túnel, encontramos um grande congestionamento, o Paso Fronterizo Los Libertadores, onde a burocracia chilena se apresenta para os turistas. Foram quase duas horas parados ali, em filas de imigração. Tira bagagem do ônibus, passa por raio-x, volta bagagem pro ônibus, entra na fila para imigração, sai da fila da imigração, pronto, vamos para Santiago. Passada a imigração, é hora de descer a Cordilheira, descida que é uma atração a parte. Aqui não tem como ser "sem emoção". Há um lugar chamado "los caracoles", uma incrível estrada que vai em zigue zague, com curvas fechadíssimas, onde você tem a impressão de que o ônibus vai passar reto no vazio... super legal hehehehehe! Tem gente que morre de medo, acho que tinha uma mulher até rezando, mas eu adorei. Passado isso, um pouco de monotonia na paisagem, e já estávamos perto de Santiago, com sua rodoviária também esquisita, mas um pouco menos bagunçada que a de Buenos Aires.
Dica, se alguém resolver fazer a mesma viagem, vá de ônibus leito.
Nunca vá direto, pare sempre em Mendoza. A cidade é bem legal.
Chegando no chile, na rodoviária, não compre hot dog com um negócio verde no meio. É abacate! Blaght! No inverno a estrada das Cordilheiras tem horários de abertura e fechamento, então prefira fazer a viagem no verão.
Na volta eu troquei a passagem e voltei de leito. Teria voltado de avião se pudesse, mas tirando a TV que havia na minha cara e ficou ligada a noite toda, e as quase 24 horas de viagem, foi mais suportável.
Chegando no chile, na rodoviária, não compre hot dog com um negócio verde no meio. É abacate! Blaght! No inverno a estrada das Cordilheiras tem horários de abertura e fechamento, então prefira fazer a viagem no verão.
Na volta eu troquei a passagem e voltei de leito. Teria voltado de avião se pudesse, mas tirando a TV que havia na minha cara e ficou ligada a noite toda, e as quase 24 horas de viagem, foi mais suportável.




