sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Montreal a Nova York de Trem

Tempo de viagem de trem entre Montreal e Nova York - 11 horas
Tempo de viagem de avião entre Montreal e Nova York - 1 horas e meia.
ENTÃO PORQUE DIABOS EU RESOLVI IR DE TREM?

Não, não sou masoquista...    vamos ver se consigo explicar.
Quando estou viajando, sempre quero conhecer os lugares por completo. Adoro aviões, mas queria conhecer algo além dos aeroportos de chegada e partida, eu queria conhecer a fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos, queria saber como é a imigração dentro de um trem, como é a paisagem no interior dos dois países, como seria chegar em Nova York de trem, e não de avião. Ta bom, eu sei que é difícil de convencer alguém quando falamos em 11 horas de viagem, mas assim, quando fui de Montreal para Nova York, eu já estava viajando fazia 20 dias, e depois desse tempo todo, eu precisava de um dia para descansar, um dia em que eu não precisaria andar o dia todo como eu faço sempre que estou viajando, um dia em que eu pudesse apenas sentar em uma poltrona confortável, e ver a paisagem passando pela minha janela...   compreendeu? Trem era a resposta...  e então vamos aos fatos. 

Comprei a passagem pelo site da Amtrak, a empresa ferroviária americana. Comprei aqui do Brasil mesmo, imprimi e apresentei no dia do embarque. Apesar do trem sair do Canadá, a empresa é americana. Sempre eu vi Amtrak nos filmes, então não deixou de ser um sonho realizado. A estação central de Montreal, de onde sai o trem, fica no centro...   dã, se é central, só podia ser né Ivo. O bom da estação de partida ficar no centro é que você não precisa gastar muito com transporte, basta um metrô até o centro, e de lá, já pega o trem.
O dia de ir começou, acordei, olhei no relógio e pensei, ah, tô tranquilo, tô uma hora adiantado...   quem me conhece sabe que eu acordar uma hora mais cedo para alguma coisa teria que ter sido um milagre. Na verdade eu não estava adiantado, foi meu celular, que uso como despertador, que se ajustou automaticamente ao horário do Canadá e eu não percebi, quer dizer, percebi, mas só quando estava tomando café da manhã. Os instantes que se seguiram a isso foram de intensa correria... corri, corri, corri, corri, e embora a temperatura fosse de cinco graus, cheguei todo suado a Gare Centrale, a Estação Central de Montreal. Ufa, deu tempo!

Estação Central - Gare Centrale - de Montreal


Entrei, achei minha poltrona, me acomodei, e lá fiquei. Pontualmente no horário o trem começou a  se mover. Assim que partimos o maquinista, ou seja lá o nome que se dê a alguém que pilote um trem, começou a falar com os passageiros pelo sistema de som. Todo engraçadinho, me deixou bravo quando disse que não havia wi-fi, mas a vista que teríamos pela janela compensaria. Pô... mas eu comprei até um adaptador para a tomada! Enfim, fiz aquilo que o maquinista disse, aproveitei que não tinha wi-fi e fui olhar a paisagem pela janela...   e que paisagem heim.
O trem aos poucos foi saindo de Montreal, passando por lugares no interior do Canadá, e não demorou muito para chegar a fronteira americana. Pouco antes de chegar na fronteira, onde o trem para para a imigração, eles informaram que o vagão restaurante seria fechado. Informaram também que, após parar, não estaria mais autorizado que as pessoas se levantassem de suas poltronas, e que eles tentariam fazer tudo da forma mais rápida possível. Olha, ficamos 2 horas parados ali. Se essa foi a forma mais rápida possível, imagino se tivesse sido a mais lenta.
O problema é que os oficiais da imigração americana, super paranoicos como sempre, entram vagão por vagão, e vão checando os passaportes, enquanto os passageiros não podem se levantar. A proibição de se levantar é para que ninguém tente enganar os oficiais né, tipo, você se levanta, vai ao banheiro, e quando ele já passou pelo seu lugar, você volta e senta onde ele já passou, escapando da imigração. Americanos são espertos viu! :)
Enquanto eu esperava, uma surpresa...   bolinhas brancas, quer dizer, não exatamente bolinhas, mas floquinhos brancos de neve começaram a cair do lado de fora da janela do trem. Ta bom, não caíram tantos floquinhos assim, mas para um brasileiro deslumbrado como eu, foi encantador ver neve  pela primeira vez na vida. A neve parou e eu ali, esperando, esperando, esperando, tive tempo até pra contar quantos dormentes tinham naquele trecho de trilhos. Ainda bem que levei uns doces na mochila... kit kat sempre me salvando na hora da fome.
E eis então que chegou a moça da imigração. Pegou meu passaporte, olhou e perguntou, você é um cidadão brasileiro? Deu vontade de responder, não, sou japonês, não ta vendo sua loira...  mas me contive e respondi "yes" :)
Aí ela olhou minha mão e perguntou se eu tinha família. Gastei todo meu inglês dizendo pra ela que eu morava sozinho em São Paulo, mas meus pais moravam no interior, bla bla bla...  e aí ela perguntou, você é casado? Ahhhhhhh...   então era isso que a loira com cara de espiã queria saber quando perguntou se eu tinha família...  respondi que não (e percebi que ela estava observando minha mão, sem aliança... americana esperta). Como meu passaporte já tinha carimbo de entrada, que ganhei em Miami, e era válido por 6 meses, não precisei me levantar e ir até uma sala na estação, enfrentar fila para carimbar. Logo depois veio outro oficial, esse era um que controlava comida, ou algo parecido. Perguntou se eu levava algum tipo de alimento, informei que sim, e ele pediu ver o saco de kit kat que havia em minha mochila. Não pediu um e nem me prendeu por tráfico internacional de chocolate. 
Esperei, esperei, esperei, esperei, e depois de esperar mais um pouco,  finalmente partimos, agora já em solo americano. Bem-vindos a América, disse o maquinista engraçadinho. 
O trem continuou, parando de vez  em quando, embarcando e desembarcando americanos em lugares que eu queria ter tempo e dinheiro para conhecer. Eram cidades pequenas, aquelas típicas cidades americanas que vemos nos filmes. O trem as vezes parecia parar na praça central, ou no quintal de algumas casas. Lembro que em uma das estações havia um tipo de sítio ao lado, com vacas pastando. O que eu também gosto no trem é que você pode se levantar, ir até o restaurante, almoçar uns sanduíches estranhos, comprar kit kat (sim eu adoro), voltar, dormir um pouco, olhar a paisagem...  a distância entre as poltronas é ótima, da pra descansar muito bem, mesmo pra mim que sou grandão (tanto na vertical quanto na horizontal heheehehe).
Quando faltava umas 4 horas para chegar em Nova York, e logo após passar por Albany, começamos a margear o Rio Hudson. Lindas paisagens, em um entardecer inesquecível. Alguns dizem que a vista de quem senta do lado esquerdo é melhor, mas eu me sentei do lado direito e gostei muito. 

Entardecendo no Rio Hudson
                                                          
Já era perto de oito da noite quando o trem começou a entrar em Manhattan. Quando ele vai chegando perto da estação, você para de ver as paisagens porque ele começa a entrar em meio de prédios, com paredes pichadas, passa no mesmo trilho do metrô, ao lado de estações, muito doido...   finalmente Pen Station, e eu estava na Big Apple.

Foi como planejei, fiquei o dia todo sentado, vendo uma linda paisagem passar na minha janela, comendo e dormindo...   Ta bom né?   Depois desse dia de descanso eu estava pronto para desbravar Nova York! 

Nota: Dois dias depois a polícia canadense descobriu que havia um grupo terrorista planejando explodir esse trem embarcando bombas no Canadá e detonando ao chegar na Pen Station...   super legal né! :)

Pra quem gosta, recomendo essa viagem. Não é cansativa, e não é todo dia que terroristas tentam explodir o trem. Na verdade é muito legal ver as fazendas, lagos, cidadezinhas, e pessoas no interior dos Estados Unidos que vivem uma vida muito diferente da sua. Agora, para quem tem pouco tempo, vá de avião mesmo. É  mais barato e mais rápido.